Ebulição

Sem sentido as coisas vão acontecendo no ar, pousam em terra firme, rastejam em solo marcado por caminhos, travessos, embaralhados de direções. Trago velas, acendo, mas sopro. Luzes queimam este chão, este teor.
Tudo embaralhado dentro, quebrado, desconexo. Separação? Terra firme não conhece pés, água não lava corpos, sentimentos carregados de dor, angústia. As mentes têm sono e os corações, fome e sede. Nenhum mar de ilusão foi capaz de matar, só suprir, brevemente.
Lá fora a vida, um engarrafamento em dia quente, dentro, fogo e gelo juntos, criam massas de ar no peito, ora redemoinhos em barriga, ora poeira nas gargantas.
O tempo balança rápido! Espia-nos do alto para ver até onde vamos, levamos esses blocos de notas sedentos de caligrafia, de mãos; cheios, abarrotados de teclas e tintas, que nunca é fresca, mas esculpe beleza, padrões, também sentimentos, corpos, vibrações.
Montanhas de areia nos circundam, dentro. Já me afundei, de tanto tentar andar sob elas, desfazendo-as, ou correndo da areia muito quente para não queimar os pés. Não preciso desfaze-las, mas todos os dias, mexer, molhar, deixar marcas de pés, escrever com gravetos, ou dedos, próprios. Nas calçadas, os grãos se vão aos poucos, mesmo me acompanhando até em casa, só água, sabão para lavar os restos. Às vezes o vento, joga estes grãos no olho. Ardem, incomodam, pintam-se em vermelho e depois se lavam, com água e sal.
Dentro de casa água toca o corpo, leva em chão e ralo, os restos, resquícios, dessas dores, dessas irritações, acúmulos de dentro e/ou de fora, quando não tiradas, limpas assim que se entra em casa, podem grudar em pele ou irem caindo com os passos dados para avante.
A noite cobre vida e céu lá fora, corpo e olhos cansados, mas não de ressaca, dedos enrugados de mergulho ebulitivo em emoções, passados, futuros, angústias vivas de nós mesmos, de pensamentos e paralisias atitudinais. Deixo quieto, logo se vão, sozinhos.
Apago velas, apesar de gostar delas, não suporto as sombras que refletem na parede do meu quarto. Mas se minha boca pode apagar e depois acender, quando quero, quando preciso; como sigo entre retas, linhas e curvas, sem me embolar no ar?